Como saber pela aparência se um homem é gay?

Evolução de moda e estilo em homos e heteros anula estereótipos
Confuso com o novo estilo dos Backstreet Boys que, esperando voltar ao
sucesso, parecem muito mais com “Queer Eye for the Straight Guy”?
Curioso com Brad Pitt, para promover seu novo filme, pintou os cabelos
tão louros que até seu cabeleireiro estranhou?
Bem, e aquele sujeito que você vê no vestiário, tirando as calças
Prada, camisa Paul Smith e abotoaduras para colocar uma camiseta justa
e short de futebol Adidas? Ele usa aliança porque se casou em Nova
York –ou em Massachusetts?Ou aqueles homens de 40 e poucos anos andando no parque, vestindo camisas em tons pastéis, calças cáquis, mangas enroladas e colarinho
levantado, um deles empurrando um carrinho de bebê? Será filho dele
–ou deles?

Confuso? Você não está sozinho.

É final de junho, quando muitas cidades em torno do país debatem o
orgulho gay, e homens musculosos seminus voltam às ruas. Mas agora a
confusão vai além deles. Os homens gays atualmente se sentem mais
livres para se desfazer do estilo identificado com a orientação sexual
e os padrões físicos schwarzeneggerianos.

Enquanto isso, os heterossexuais estão mais à vontade para mostrar um
grau de tônus muscular raramente visto fora das capas de revistas
masculinas. E estão adotando um visual –camisetas sem manga, jeans
justos, sandálias e bolsas– que até um ano atrás poderia ser
entendido como gay.

O resultado é uma nova zona cinzenta que está deixando o radar gay
–aquele sexto sentido sem qualquer base científica que muitos usam
para dizer se um homem é hetero ou homossexual– tão desatualizado
quanto o Windows 2000.

Não é que os heterossexuais pareçam gays ou que os gays pareçam
hetero. O que está acontecendo é que muitos homens migraram para um
território comum onde os traços que tradicionalmente denunciavam a
orientação sexual –penteado, roupa, voz, linguagem corporal– são
cada vez mais ambíguos.

Faça piadas, chame do que quiser: até de “vaga gay”. Mas os pólos
estão se derretendo rapidamente. A nova convergência do estilo gay não
deve ser confundida com a metrossexualidade, que levou homens hetero a
incorporarem luxos femininos como pedicura, velas perfumadas e camisas
coloridas.

A vaga gay afeta tanto heterossexuais quanto homo. Envolve mais do que
se roupas ou cuidado pessoal. Inclui, por exemplo, uma indiferença por
parte dos homens quando alguém confunde sua orientação sexual –daí o
mau funcionamento do radar gay.

“Não tenho mais a menor idéia. Alguns heterossexuais que entram aqui
eu nunca teria imaginado que eram hetero, e alguns dos homossexuais eu
também não adivinharia”, disse Brad Habansky, cuja loja e salão para
homens, chamada Guise, no bairro de Chicago Lincoln Park, se
especializam em moda masculina.

Confuso, Habansky ao menos se identifica com a situação. “Muitas
pessoas acham que sou gay”, disse ele, acrescentando que seus clientes
gays são os que têm maior dificuldade em se convencer de que ele é
hetero.

“Já fui chamado de gay um milhão de vezes. Não dou a mínima”, disse
Robert Vonderheide, heterossexual que é representante de vendas de
várias linhas de roupas em Nova York. Ele acrescentou, porém, que isso
não acontece tanto hoje em dia e diz ver menos diferença entre os
homens em termos de como expressam sua masculinidade fora do quarto de
dormir.

“Se você não dá a mínima, isso aumenta seu charme, atualmente”, disse
Kate White, editora da Cosmopolitan. Ela salientou que Seth, o
personagem sensível e temperamental interpretado por Adam Brody no
seriado “The O.C.”, que é constantemente alvo dos machões do programa
por parecer gay, tornou-se o preferido entre os telespectadores.

Assim como há personagens da vaga gay na televisão, há bandas da vaga
gay, como a Bravery (fotografada por Steven Klein para L’Uomo Vogue,
com o visual gay dos anos 70). O single do grupo “Honest Mistake”
parece falar de um erro de uma pessoa ao entender a sexualidade de seu
melhor amigo. Talvez não –a letra é meio vaga.

“Os códigos foram completamente rompidos. Outra noite eu estava em um
jantar ao lado de um homem que dizia que não conseguia mais distinguir
os gays, que simplesmente não tinha mais um radar. Foi tão engraçado,
porque eu também não soube dizer se ele era gay”, disse Valerie
Steele, diretora do Museu do Instituto de Tecnologia da Moda.

O que apressou a mudança foi a perda da hierarquia da moda. Durante
anos, os gays eram os primeiros a adotarem uma tendência –calças sem
pregas, jaquetas de motocicleta, cortes de cabelo rentes– e os
heterossexuais adotavam-na mais ou menos quando os gays cansavam-se
dela. Agora homos e heteros estão adotando novos estilos quase
simultaneamente.

“O lapso entre a inovação gay e a apropriação hetero hoje é
inexistente. Eles estão incorporando as tendências tão rápido quanto
nós”, disse Bruce Pask, diretor de estilo da revista Cargo, que é gay.

Marshal Cohen, analista do NPD Group, que pesquisa tendências da
indústria da moda, observou que hoje há muito mais homens que não
temem gostar de moda. Em 1985, somente 25% de todo o vestuário
masculino era comprado por homens, disse ele; 75% era comprado por
mulheres para os homens. Em 1998, os homens estavam comprando 52% das
roupas para homens. Em 2004, esse número cresceu para 69% e não parece
querer cair.

“Deixamos a era em que a definição do estilo dos homens era feita pela
preferência sexual”, disse ele. “Agora o que define como a pessoa se
veste é se quer ‘ter estilo’ ou não”.

Com o advento da Internet, os homens, longe do escrutínio dos
vendedores, estão livres para comprar em lugares que talvez não fossem
em pessoa e comprar roupas que, tiradas do contexto da loja, perdem
não só os significados de tendência sexual, mas também inferências
sobre a classe, a idade e a raça.

O resultado é uma categoria inteira de vestuário que sai tanto da
cultura de skate e surfe, quanto de uniformes escolares e modelos
elegantes de Prada e Marc Jacobs, com marcas quentes como James Perse,
Rogan, Rogues Gallery, Trovata, Energie, Original Penguin, Le Tigre e
Libertine.

Até a marca 2xist de roupa íntima, antes orientada para o mercado
homossexual, agora credita aos heterossexuais 50% de suas vendas
anuais de quase US$ 40 milhões (em torno de R$ 100 milhões), disse uma
porta-voz. Esse aumento foi promovido por menções da marca no programa
“Queer Eye for the Straight Guy” e vários flagrantes da cueca de
Justin Timberlake.

“Todas as marcas que represento são da vaga gay”, disse Vonderheide,
referindo-se, entre outras, à Modern Amusement, da Urban Outiftters;
Wash; e à linha sexy Da’mage. Ele não usa a palavra metrossexual
–”aquele termo horrível”– porque acha que marginaliza o homem da
moda, implicando que há algo de extraordinário ou pouco masculino em
gostar de roupa. “O homem tem consciência da moda, e não tem mais
medo, gay ou não”, disse ele.

White, da Cosmopolitan, disse que seu filho adolescente e seu marido,
que antes faziam compras com ela, têm saído só entre homens e feito
escolhas interessantes. “Meu marido chegou em casa com um casaco de
pele de castor” disse ela. “Ele adorou”, disse ela. “É definitivamente
gay vague.”

Ela e seus leitores em geral aprovam a tendência, mas há um limite.
“Apreciamos o fato de eles estarem mais atentos. Mas, por outro lado,
a idéia de um homem fazendo as unhas do pé deixa algumas mulheres
nauseadas”, disse ela.

Alguns homossexuais concordam. O estereótipo do físico gay sarado vem
perdendo força, na medida em que seus interesses mudam da musculação
para os esportes ou quando se tornam pais e não têm tanto tempo
disponível para treinar.

O termo “Chelsea boy”, denotando um ideal gay bronzeado e forte, até
mesmo adquiriu um tom pejorativo. Atualmente “é mais fácil para os
homens gays admitirem serem maltrapilhos e para os heterossexuais
serem arrumadinhos”, disse Brendan Lemon, editor da revista “Out”,
para gays.

“Uma das coisas que está mudando a forma que os gays são vistos é que
as pessoas hoje conhecem uma variedade de gays. Pessoas que não se
encaixam nos estereótipos de cabeleireiro, designer de moda e
decorador.”

Isso criou dificuldades para revistas voltadas para o público gay,
como a “Out”, de conciliarem várias identidades. Por outro lado, as
publicações da vaga gay, como Details e Cargo, destinadas a homens
conscientes da moda, estão prosperando.

Lemon sugeriu que, para uma geração que cresceu vendo “The Real World”
na MTV, programa no qual personagens gays e lésbicas não eram em nada
mais extravagantes do que os heterossexuais, ser gay não tem o estigma
ou a extravagância que tinha. Isso também alterou o cenário da moda
masculina.

“Se você pode sair com seus amigos hetero e faz parte do grupo, não
vai sentir a necessidade de parecer diferente como afirmação de
identidade. Aquele programa é um grande exemplo de como a forma de
vestir se igualou” e não precisa mais refletir a sexualidade.

Pask concordou que muitos homens gays, especialmente os mais jovens,
não se sentem nem parecem diferentes. “Eles não precisaram afirmar seu
espaço na sociedade, seu direito de ser quem são”, disse ele. “Eles
não estão lutando para ser vistos. Nós fizemos isso; eles não precisam
mais.”

Os jovens talvez associem o visual gay do final dos anos 80 e início
dos anos 90 com a raiva e angústia que a Aids trouxe ao mundo gay
–uma experiência que não viveram.

É claro que ainda há limites. A sunga da Speedo ainda está fora de
questão até para os americanos heterossexuais mais vaidosos, assim
como conhecer a letra do mais recente sucesso de Kylie Minogue.

E Alice Eisenberg, que trabalha na porta de vários bares gays de Nova
York, disse que seu radar gay supersensível continua infalível. No
último final de semana, ela surpreendeu a todos quando abordou um
sujeito estilo vaga gay, de chapéu e tudo, na fila do Boys Room, um
bar no East Village, perguntando: “Você sabe que este é um bar gay,
não?”

“O jeans estava certo, os tênis estavam certos e ele tinha um corpo
legal”, lembra-se. “Mas a camisa estava completamente fora da calça, e
acho que era Old Navy.”

O sujeito agradeceu, deu meia volta e fugiu.

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